quarta-feira, março 19, 2008

Verve urbes

O rico vocabulário português distingue as palavras ser e estar, quando em outras línguas um único verbo conjuga as duas condições.

De fato, o ser está muito ligado ao estar (tempo e espaço).

Para explicar quem é ou o que são todos os elementos de que se é cercado, fala-se de lugar. Essa figura abstrata que não existe enquanto tal. Lugares são antes e sobretudo construídos no imaginário. Ali, lá, aqui... são lugares referenciados na experiência do descritor.

Urbanistas, arquitetos seriam seres especializados em ler o imaginário comum e traduzi-lo em edificações. Tal interpretação pode vir a ser considerada Arte, e só a Arte pode aclarar as idéias de onde, por que e como vivemos contemporaneamente.

No mito da caverna, Platão indica que as idéias (sombras de realidade) e não as coisas é que são verdadeiras. Sendo que verdade é o que o indivíduo assim o considera, de acordo com seu conhecimento.

Hoje continua sendo um desafio perceber a realidade das coisas. Ainda estamos atentos à penumbras no fundo da caverna. Permanecemos sob lajes, sobre cimentos, ares condicionados, inodoros, através de janelas gradeadas, com películas 100%, arames farpados, cães de guarda, muros, muros e mais muros.... Cercados de controles remotos, teclas e pílulas anti-stress. Internet, tv digital, rádio.... todas essas fantasias e sombras tecnológicas projetadas pela engenhosidade do homem.

O lá fora - o real - continua tão temível quanto nos primórdios, apesar da aparente luta milenar pela conquista dos territórios, dos espaços e cognições (= conhecimento).

Até o presente momento as estratégias resultaram inócuas.

Cada vez mais reduzimos espaços, reduzimos contatos e as possibilidades de cognição. Somos capazes de espremer pessoas em cubículos herméticos chamados apartamentos modernos.
Reduzimos a distância física e o tempo "gasto" nos deslocamentos entre um e outro compartimento hermético para, resumidamente, aumentar exponencialmente os chamados "conforto e proteção pessoal", mais conhecidos como isolamento.

Cabe a cada indivíduo, sobretudo aos tais interpretes do imaginário coletivo, entre eles - arquitetos, responsáveis pelo legado edificado da humanidade, reavaliar os valores que se perpetuam, se agravam, se intensificam e propor releituras que ajustem as direções hoje discrepantes entre o curso e os discursos da história.

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