domingo, abril 27, 2008

Ciclone


Tive um amigo de codinome Ciclone que me presenteava livros.

Parecia ser a demonstração de um afeto quase maternal, do tipo que se preocupa se a cria está permanentemente alimentada. Uma insuportável sensibilidade e que por isso, ele maculava com sugestões de desejos eróticos inexistentes de ambas as partes, mas que o fariam sentir-se mais confortável se existisse.

Sua mulher engravidou e desde o nascimento do bebê, nunca mais me escreveu. Entendi que agora ele tem uma personagem genuína à qual direcionar seus melhores sentimentos. E mais, entendi o quanto fui importante naqueles breves meses em sua vida.

Quantas vezes fomos marcantes nas vidas que nos esbarraram e não nos demos conta?

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Acabo de assistir ao filme australiano “Inocence”, que fala do amor adolescente permissivo do pós-guerra, revivido 40 anos depois, no reencontro apaixonado desses agora idosos, onde se vê que o núcleo brilhante e imutável do sentimento do bem querer, permanece até o fim da vida.

Os clichês de “amor não tem idade”, “ o verdadeiro amor nunca acaba” são a massa de modelar do diretor. Os atores - delicados e honestos no olhar, são espetáculo à parte.

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É um misto de TPM, saudades, ansiedades... que sempre me embriaga e faz com que fale de coisas que talvez nem saiba. Ou saiba tanto e sejam tão intrínsecas que deveriam dispensar palavras. Sei lá.

Como diz Manuel de Barros num dos presentes de Ciclone:

“Há um cio vegetal na voz do artista.

Ele vai ter que envesgar seu idioma ao ponto de alcançar o murmúrio das águas nas folhas das árvores.

Não terá mais o condão de refletir sobre as coisas.

Mas terá o condão de sê-las.

Não terá mais idéias: terá chuvas, tardes, ventos, passarinhos...

Nos restos de comida onde as moscas governam ele achará solidão.

Será arrancado de dentro dele pelas palavras a torquês.

Sairá entorpecido de haver-se.

Ver sambixuga entorpecida gorda pregada na barriga do cavalo –

Sairá entorpecido e escuro.

Vai o menino e fura de canivete a sambixuga:

Escorre sangue escuro do cavalo.

Palavra de um artista tem que escorrer substantivo escuro dele.

Tem que chegar enferma de suas dores, de seus limites, de suas derrotas.

Ele terá que envesgar seu idioma ao ponto de enxergar no olho de uma garça os perfumes do sol.

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E hoje é só domingo...

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