quarta-feira, abril 23, 2008

O cretino


Há semanas tenho ouvido nas mais inusitadas horas do dia ou da noite a mais pura e contundente manifestação do aflorar de um cretino.

Explico.

Tenho um vizinho, de nome Caim, que é a pessoa mais cretina que já conheci. De fato, nem o conheço, mas isso não impede de ser uma de suas vítimas. E tenho certeza de não ser a única.

Ele é um espécime exemplar de como se fecunda e cultiva um mal caráter. Daqueles que são capazes de mentir a morte da mãe (ou sufocá-la no porta-malas de um carro, se a situação assim o exigir) só para se dar bem. Muito em breve, estará articulando suas esgueiríces pegajosas, típicas de personagens em quadrinhos - homem-gosma, Lesmamen e melecas afins.

Pelos berros estridentes, vociferantes e prolongados, não deve passar de 5 anos de idade. É curioso como, com tão pouca vivência, tenha desenvolvido uma tática de aniquilação do inimigo, de tamanha eficiência. Bush, não faria melhor em tão tenra idade, mesmo com sua herança genética de sucesso.

Pelas variações de freqüência dos berros – e abro aqui um grande parêntese - só som, sem articulação de palavras.Veja bem, 5 anos. O primor da tática infantilizada. Palavras enfraqueceriam a significância das súplicas pueris -fecho parêntese - enfim, analiso que ele tem um pai, e esse estrupício é seu ídolo nos finais de semana e fins de noite, e que o púbere, inadvertidamente, cria fantasias de vida siamesa com esse ídolo.

Toda bela manhã, meu despertar é agraciado com os berros obscenos de Caim. E ele tem requintes de sustentabilidade do berro. Sim, como não! Tempos modernos! Crianças antenadas.

Enquanto que, pelos efeitos sonoros das batidas de portas, arrastar de chinelos e descargas de vasos sanitários, posso (mesmo não querendo) supor a movimentação do tal pai, os berros permanecem a uns 80 decibéis, constantes... Apenas entrecortados por uma inexpressiva voz feminina que, por respeito às demais, não posso chamar de mãe.

O ápice – Saída do Pai – é o troppo alegro da opereta demente. O guri dá o seu melhor, não temendo arrebentar as cordas vocais em urros monstruosos, que competiriam em pé de igualdade com motores dos aviões regionais. E a pusilânime genitora desse monte de gosma, só sabe regurgitar gemente um: - Papai já volta, Caim...Papai já volta...

Arre égua!

Valha-me São Cosme e Damião. Guardiões das crianças – peço encarecidamente, atentarem para tão doce criatura...

Ele já exige deveras proteção, Vossas ou do BOPE.

Aaaaammmmémmmm.

Um comentário:

Anônimo disse...

Que surpresa! Muito humor, texto denso, incisivo e cheio de surpresas ao longo de todo o caminho da leitura. Não sou especialista, mas me parece da mesma qualidade das composições de certos poetas modernos americanos turbulentos e "desesperados". Zuza