quarta-feira, abril 16, 2008

O máximo é o mínimo



Sabe aquela sensação de que ainda lhe faltaram algumas horas no dia para cumprir todos seus compromissos?

Essa sensação se repetindo diariamente pode matar.

É uma forma de tortura, tanto quanto estar amarrado sob uma goteira ou receber pequenos choques elétricos continuamente, ritmadamente... irritantemente.... enlouquecedoramente....

Hoje, quem não se mata é preguiçoso. Quem não trabalha desvairadamente até adoecer é incompetente. Quem dorme oito horas, toma café com calma e deixa a vida rolar é, no mínimo, um despreocupado, quase irresponsável.

A conjunção econômica conta com a atuação de super heróis.

Aqueles que não se ajustam, não vestem, não cabem na fantasia apertada e incompatível com a natureza simplesmente humana, estão terminantemente fora do esquema.

Metas, oportunidades, business, network, cases e esse monte de... nomes – são só mais alguns conceitos que devemos ter incorporados (in corpore, subcutâneos!), mesmo que altamente subjetivos e impróprios (de propriedade de outrem).

Há idéias piores, mais estressantes. A não existência limite por exemplo.

O melhor sempre pode ser superado. E você, mesmo sabendo que não atingirá o ápice, se debate, embate e combate, freneticamente. Pratica esse auto-flagelo disfarçado de trabalho, até não ter mais saúde. Continua sorrindo o bom dia no elevador do escritório, até cair nocauteado pela surra diária e empolada desferida em cada nova reunião, proposta ou tarefa.

Estar sempre sobre o fio da navalha, invariavelmente cortará seus pés. Em pouco tempo, estará impedido de andar.

E aí? Não parou. Foi parado.

O que fazer? Inventar uma outra forma de andar? Em que ritmo? Em que cadência? Andar por que? Por quem? Para onde?

E vai se gastando o tempo em preparar um aparato financeiro-tecnológico-físico-cultural de uso futuro.

Em que hoje você admite comer mal e rapidamente, morar mal e desconfortavelmente, adiar a leitura de todos os livros e revistas que se acumulam embaladas na estante, usar as roupas, os óculos, os sapatos que já nem lhe agradam mais. Afinal, é só por esses tempos. E esses tempos já devem estar completando décadas.

Ou por outra, quando se dá conta de que não está colhendo os frutos de tanto esforço e dedicação ao trabalho, resolve “aproveitar”. Por exemplo, o final de semana. A viagem à praia vira um martírio familiar – tudo cronometrado desde as 5:30h da manhã, até o carteado à noite. O programa íntimo para reavivar a chama do casal, torna-se o remix acelerado do kama-sutra americano vistos nos filmes pornôs alugados.

No dia-a-dia, não se chega em casa cedo. E casa, é cada vez mais cama. Só serve para pra dormir. Filosofam e convencem-nos comodamente de que pouco tempo com qualidade é o que importa. E qualidade é produtividade. E entre o agora e o depois – dentro de casa cresceram filhos, cachorro, plantas, mágoas e abismos, e você nem percebeu.

Permanentemente produzindo, mantendo-se ocupado, colorindo com toda a palheta de cores berrantes seu céu de uso futuro, não deixando espaço para o vazio, tem-se a impressão de completude. Cercado do máximo de objetos e elementos criados pela mídia entende-se e pensa-se fazer entender, que se está realizado. E isso é passar a perna nas próprias pernas, enganar apenas a si mesmo.

Frear o movimento de perseguição da vida boa parece absurdo. A vida boa será sempre um dia, nunca hoje, agora, amanhã logo pela manhã, quando resolver diminuir a carga horária de trabalho para ao menos mastigar o almoço. E quando perguntarem como vai a vida, dizer delicadamente que enfim parou de se orgulhar de seu suicídio diário.

Refletir, ponderar e parar. Tranqüilizar a vida. Desacelerar o relógio. Abrir espaços. Arejar.

Fazer as pazes consigo, escutando os sinais do corpo e daquelas olheiras que gritam bem debaixo dos seus olhos. Saber os limites, os seus limites. Voltar ao eixo, ao centro lúcido. Reconhecer a diferença entre preguiça e exaustão. Elevar-se acima de si e resgatar-se.

2 comentários:

Clau disse...

Texto este, eu diria, " surreal" para àqueles ( 99%)que acreditam que viver é "ganhar", esquecendo-se que o correto seria " conquistar"...e conquistar sempre é subentendido como "crescer" que a meu ver, nada mais é do que " evoluir" de forma espiritual, de forma emocional e moral...mas reles humanos ( 90% deles, senão mais) enxergam essa busca desenfreada da vida, o " crescer" o " viver"...como um luta travada com unhas e dentes dia a dia contra a vida de si próprios, esquecendo-se que na busca daquilo que eles mais almejam, estão corrompendo seu próprio sistema, suas próprias vidas....
Enfim, o texto a mim diz:
" Carpem Diem "....Aproveite o dia, aproveite a vida, por que senão...ela se aproveitará de vc!!!
Adoro ler seu blog....e adoro vc!
saudades demais...
Clau

Aldrwin disse...

Me permita usar o teu espaço pra desabafar também. Parabéns pelo texto-desabafo e pelos textos anteriores e poemas. Poesia numa hora dessas.
Coincidentemente hoje, num desses domingos chuvosos, solitários, preguiçosos e reflexivos de Porto Trombetas pensei sobre o mesmo assunto. Título: "Afinal de contas, pra que tudo isso?"
A agonia deve ser maior para um materialista existencialista que infelizmente reflete sobre o que faz e naturalmente ruma para o abismo das certezas pessimistas.
A angústia que nos assola pela agonia do mundo somada à estúpida idéia de pensar no que se está fazendo nos revela a roda-viva de uma existência mecânica e inútil.
A ignorância é uma benção.

Dedicar uma vida para ajudar a cavar buracos de onde se tiram minérios para alguém fazer alumínio que servirá para fazer um computador que fará com que quem cava buracos (e os que os ajudam) os cave mais rápido, melhor e com menos riscos de processos que aumentarão o lucro de alguém que não cava e nem ajuda a cavar é uma existência, no mínimo, medíocre.

Já não paramos, já não pensamos, já não curtimos, já não contemplamos nem amamos. Afinal, pra que tudo isso?

Nossa mente e corpo de primatas evoluídos está no limiar da capacidade de interagir com a velocidade que as máquinas (do sistema) nos impõem e passamos a ser mais uma engrenagem e não a razão da existência do sistema. É preciso mais, mais rápido, mais barato, mais leve, mais seguro às custas de um reconhecimento e nada mais.

Somos movidos pelos pequenos prazeres do ego momentâneos, cada vez menores, efêmeros. Uma armadilha do cérebro reptiliano ?evoluido?. A neo-escravidão consentida nos dá a impressão de sermos livres. Quanto mais nos aproximamos do núcleo do sistema percebemos que tudo não passa de uma grande armadilha em espiral acelerada e auto-destrutiva que tantos já caíram, somaram e fazem com que mais seja atraídos. Quanto mais ao centro, mais rápido nos deslocamos.
Tal qual a teoria da relatividade elucidou (em parte) tanto nós quanto as particulas, quanto mais acelerados em relação às demais, mais densidade acumularemos até atingir um ponto limite de colapso.
A metáfora não é tão absurda.
A ilusão de que estar no centro é melhor em função da velocidade é mascarada pela não percepção da densidade acumulada e destrutiva.
Essa diferença é o que move tanto partículas quanto bípedes para o centro da espiral, se destruindo e ressurgindo em algum ponto em baixa velocidade pra recomeçar tudo novamente. Infinitamente.
É possível manter uma órbita estática? Valerá a pena?
Qual o limite?

Conclusões:
1)Preciso arrumar amigos compatíveis não virtuais.
2)não posso ficar tanto tempo só
3)preciso de férias
4)precisamos conversar mais sobre não trabalho.
5)Preciso de alguém pra me substituir antes do colapso.

...

6) preciso da lista de portas e caixilhos

hahahaha

Um abraço!
Aldrwin