E eis que me dá de presente um nó na garganta (rsrsrs)!
Um engasgo emocionado, nem tanto pela poesia abaixo, mas muito por sua escolha....
Uma escolha delicada, profunda, intrincada e simples... Linda por ser simples.
Que sorte a minha te ter por perto.

ANEDOTA DA LULA
A lula é de fato
um bolso carnívoro
contendo uma caneta que lhe serve
de esqueleto.
A lula é um dedo ereto ou
um polegar que se opõe. A pena da lula
é sua unha longa e escrupulosa
que se esconde.
A lula é um pássaro de bico pequeno
que comeu sua única asa, ou
se empalou em suas próprias penas.
A lula, entretanto,
a despeito de seu odre cadurciano
e quatrocentos cálices
não entretém ninguém
A lula com seus oito
braços e dois pincéis e tintas
não pinta.
A lula sabe também que o uso
da caneta e tinta não é para registrar
impressões ou para assinar o nome
em formulários e requerimentos.
Mas pode-se dizer, por exemplo,
que a lula transcreve seu silêncio
no espaço entre as vagas e o fundo-do-mar,
ou que invoca uma palavra jamais pronunciada
cuja não-pronunciação muscular somente
a lula tem conhecimento.
A lula leva sua tinta
numa saca, não num frasco.
Com ela a lula faz artefatos.
Tudo isso são equívocos na descrição,
ou na auto-descrição, ou dissimulações
aos olhos da baleia que come lulas
e para a própria lula que cresce
transparente e se retrai
deixando atrás de si
sombras coagulantes.
(ROBERT BRINGHURST, nascido em 1946)
in Nova Poesia Americana – Quimgumbo,
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2 comentários:
Esse poema evoca muita, muita coisa - desde algo sugestivo de mero movimento, ou "esquisitas estéticas" nas formas que evoca ou ainda "transformações" possíveis no conhecimento que "achamos" que temos sobre seja lá o que for. Zuza
Nossa! Fiquei muito feliz com isso tudo... Fui correndo até o café mas LábiaDom não estava lá. Por qual café andas??
Enviei msg para aquele endereço, mas imaginei que talvez você esteja longe dos expressos ou mesmo dos de coador, metida no meio da Amazônia... Fico no aguardo ansiosíssimo da sua resposta. Zuzu.
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